23 de dez. de 2009

Registro de Viagem

Algo sobre o Contexto Social e o Encontro de Formação


Um pouco de história da ONG Operação Resgate

É bom conhecer um pouco da ONG que viabilizou nossa primeira possibilidade de intervenção psicopedagógica. A intervenção teve dois encontros: um exclusivo com as professoras da ONG sobre Alfabetização e Letramento; e outro momento, que contou com a participação de professoras da cidade de Patos/Paraíba/Brasil. Trabalhamos 3 eixos que foram interseccionados: leitura, alfabetização e letramento, artes.
Tivemos a possibilidade de fazer uma intervenção especifica com a criançada com um tempo de contação de histórias e oficina de construção de brinquedos com sucata.

É impressionante o trabalho na Etiópia...a maneira como crianças pertencentes a uma realidade trágica e excludente, tem a possibilidade de se desenvolver, de serem vistos e servidos como pessoas humanas que são...

E também é de grande importância perceber - em tão pouco tempo - o processo que tem sido vivido pela comunidade local e suas crianças, que nos receberam com dança e música.

Para saber mais
http://operacaoresgate.org.br




22 de dez. de 2009

Propostas Práticas - ARTE com as crianças...


ALGUMAS PROPOSTAS PRÁTICAS - Muitas são as possibilidades práticas. Boas descobertas!

Os sentidos
As experiências sensoriais possibilitam o contato com os sentidos: olfato, visão, audição, tato e paladar. Este contato traz a criança de volta para si mesma, desenvolvendo assim a sua sensibilidade. Nas experiências sensoriais há sempre mais de um sentido em que se pode trabalhar.

1) O tato
O tato pode ser desenvolvido de diversas maneiras, utilizando-se, por exemplo de argila, areia, água, biscui, massinha pra modelar, terra, gesso, pintura com os dedos das mãos e com os pés.
É bastante interessante possibilitar que a criança, através do tato, diga qual a sensação que sente ao tocar determinados materiais, tais como: lixa, borracha, veludo, algodão, papel, metal, madeira, pedra.
O tato refere-se às sensações que sentimos em toda a extensão da pele e não apenas nas mãos. É importante que a criança tenha contato com várias texturas também nos pés e em outras partes do corpo.
A pele é o nosso maior órgão, é nossa fronteira de contato com o mundo. A pele e o sistema nervoso central provêm das mesmas células embrionárias, daí se vê a sua imensa relação com as sensações e emoções do ser humano.

2) A visão
É fundamental resgatar a curiosidade visual da criança e permitir que através dos seus olhos ela possa se enxergar. É interessante colocar à criança à frente de objetivos, e melhor ainda, de manifestações da natureza, como árvores, flores, montanhas, animais e pedir que olhe e veja (pois, muitas vezes olha-se mas não se vê), os detalhes, as características, as proporções daquilo que ela olha e depois representá-los através de uma pintura, um desenho, uma escultura.

3) A audição
Uma boa atividade é pedir que ela feche os olhos e comece a ouvir o mundo, dizendo o que ouve e quais as sensações e emoções que os sons trazem a ela. Também é interessante pedir que ela faça com uma folha de papel os mais diversos sons que conseguir. Ela pode, por exemplo, amassar, rasgar, movimentar a folha aberta de um lado para o outro.
Violet (1980) diz que sons e sentimentos combinam. E recomendado que se converse com as crianças sobre sons tristes, sons alegres, sons amedrontadores, sons de suspense. A própria voz, através dos diferentes tons, pode ser o instrumento para se perceber qual sentimento àquele tipo de som reflete.
Dentro da audição encontra-se o fundamental contato com a música: ouvir belas músicas, produzir músicas, ter contato com os mais diversos instrumentos musicais. A música tem ritmo e ritmo é um elemento organizador para a criança.

4) O paladar
O paladar refere-se a gostos e texturas que se sente com a língua, e que podem remeter à criança a várias sensações. É importante que a criança perceba a importância do paladar, que possibilita a ela sentir o doce, o amargo, o azedo, o salgado. É interessante que o professor leve até as crianças alimentos que as façam entrar em contato com os mais diversos sabores.

5) O olfato
O educador precisa permitir que a criança experimente vários cheiros, e as sensações e emoções que eles trazem. O cheiro está bastante associado à memória.

6) O sexto sentido: a intuição
Utilizar a fantasia, a imaginação é uma boa maneira de fazer com que a criança entre em contato com a intuição. Através da imaginação e da criatividade muitas atividades criativas podem ser realizadas.
Boas possibilidades para trabalhar essa intuição criativa são as produções realizadas com diversos materiais, a partir das sensações que uma música pode suscitar.

A literatura
Crianças precisam de histórias. Pode-se contar a história sem ler ou lendo. Pode-se também usar de recursos como tecidos que ganham vida, fantoches, massinhas de modelar, músicas, dobraduras. Cabe ao educador tornar o mais interessante possível a “contação” de histórias, para que a criança possa elaborar sentimentos, conhecer a si mesma, desenvolver-se moralmente.
Ao contar histórias é importante que o educador estimule a criança a escrever as suas próprias histórias, desenvolvendo assim o gosto pela leitura e a escrita.
Podem-se fazer saraus, onde as crianças leiam poesias de autores conhecidos ou poesias delas mesmas. Onde leiam textos de autores que gostem ou seus próprios textos, podendo assim se expressarem no mundo.

O teatro
O teatro permite à criança experenciar várias emoções. Elas mesmas podem ser autoras de suas peças, podem fazer os figurinos e cenários, entrando em contato com a magia do teatro, que contribui para sua formação integral.

Artes plásticas
As artes plásticas são abrangentes. Aqui será falado sobre escultura, pintura e colagens.
É interessante que as crianças tenham contato com grandes pintores, escultores. É importante estimula-las a apreciarem as obras de arte (que podem ser vistas pela internet e pelos livros) e ao mesmo tempo estimula-las a apreciarem as suas próprias produções artísticas, lembrando a possibilidade inventiva que o autor desprende para criar ou recriar a realidade.

1) A escultura
A escultura é uma maneira que a criança tem para expressar-se no mundo de forma tridimensional. Pode-se utilizar arame, gesso, madeira, metal, papel, argila.
É interessante o uso de ferramentas. Para que a criança possa se expressar de diferentes formas e desenvolver sua criatividade através da argila, é interessante que o educador dê a ela várias ferramentas, tais como espátula, colher, espremedor de batata, ralador de alimentos, lápis;

2) Colagens
A colagem é feita a partir de pedaços de vários materiais colados em uma base que pode ser papel, madeira, tecido, plástico. Podem ser utilizados para colagem materiais como papel (de todos os tipos), jornal, revista, tecidos, lantejolas, algodão, lã, barbante, celofane, lixa, folhas de árvores, plásticos, sementes, fitas, fósforos. São inúmeros os materiais que podem ser utilizados.
Através de tesoura e cola a criança elabora seu trabalho plástico. É divertido, trabalha a criatividade.

3) Pintura
Crianças adoram pintar, pois vêm nesta atividade a possibilidade do brincar. É interessante estimula-las a misturar cores e verificar as novas cores que surgem. A pintura pode ser utilizada de forma livre, ou com uma intenção pré-determinada pelo educador.
Pode-se pintar tanto com as mãos, tanto com os pés. Pintar com as mãos tranqüiliza a criança. Pintar com os pés não é tão comum, infelizmente, pois as escolas geralmente não permitem que as crianças vivenciam o prazer de andar descalças, o que desenvolve a sensibilidade.
Em relação à pintura com as mãos, pode-se usar vários tipos de tintas. A aquarela é bastante fluida, não permite o total controle por parte de quem pinta. Outras tintas podem ser utilizadas, tais como: têmpera, guache, tinta acrílica. Não é necessário utilizar as tintas já prontas, que são comercializadas em casas de arte (a seguir encontram-se algumas receitas).
Ainda com relação à pintura, é bastante significativo fazer a atividade de auto-retrato; varal e pregadores. É bastante útil utilizar um espelho, para que as crianças possam observar seus rostos antes de fazer o auto-retrato.

5) Cinema ou DVD
Assistir filmes é muito interessante. As crianças podem ser estimuladas a filmarem a si mesmas, podendo até fazer pequenos filmes, com figurinos, personagens, cenários, diretores, produtores.

6) Dança (Trabalho Corporal)
O trabalho corporal é muito importante para que a criança tenha consciência de seu corpo e de si mesma. A dança é um destes trabalhos e ocorre de forma prazerosa. Violet diz:
“Quando a criança se torna desligada de seu corpo, perde o senso de si própria bem como grande dose de força física e emocional. Assim, precisamos fornecer-lhes métodos para ajudá-la a conhecer seu corpo, sentir-se à vontade nele e aprender a usa-lo novamente”. (OAKLANDER, 1980, p. 151).

As crianças podem escolher as músicas que querem dançar e/ou o educador pode sugeri-las. Dançar é sentir-se livre, é sentir-se, realmente, criança.
Ainda dentro do trabalho corporal é interessante que a criança aprenda a sentir sua respiração.

O que precisamos "saber" sobre as crianças e o brincar...

1. O que não “sabemos” sobre as crianças...

“Cada criança reconstrói a sua própria inteligência e seu próprio conhecimento. Por exemplo, contar ou recitar o nome dos números, certamente, para a criança vem do mundo externo. Porém aprender a noção de números é algo muito diferente de aprender a recitar os nomes dos números. A noção de número é construída pela criança como um ato criativo, como uma multiplicidade de atos criativos.” (Jean Piaget, 1972, Conferência Criatividade: Psicologia, educação e conhecimento do novo)

“Se concordamos com Piaget que em todo o processo de conhecimento estamos sendo criativos (por criarmos estruturas para conhecer), talvez fosse mais adequada à preocupação com o planejamento de aulas plenas de situações novas a serem conhecidas, plenas de perguntas que desafiassem os alunos a sofrerem desequilíbrios cognitivos. E não a preocupação com o planejamento “formação para a criatividade”, mas o planejamento para as experiências de conhecimento.” – Profª Luiza Helena da Silva Chistov – Sobre a palavra criatividade: o que nos levam a pensar Piaget e Vygotsky.

2. Brincar

O brincar tem um lugar e um tempo. Para dominar o que esta fora é preciso fazer coisas, não só pensar ou desejar, e fazer coisas leva tempo. BRINCAR é fazer. (Winnicott)

O brincar é parte essencial do desenvolvimento da criança, a criança que não brinca não se desenvolve de forma plena. Winnicott (1975) afirma que é no brincar que a criança encontra meios para ser criativa e utilizar sua personalidade integral.

Brincar é descobrir as bondades da linguagem; é inventar novas histórias, é assistir à possibilidade humana de criar novos pulsaris, e isso é maravilhosamente prazeroso. Brincar é por a galopar as palavras, as mãos e os sonhos. Brincar é sonhar acordado; ainda mais: é arriscar-se a fazer do sonho um texto VISÍVEL. Um grande obstáculo para instrumentalizar um programa educativo em que a criança e seus jogos estejam no centro é a dificuldade que tem os professores para jogar. (Morales Ascencio,1995)

“Dizer que a educação é atividade irmã do brinquedo e da arte é denunciar a repressão, relembrar o paraíso perdido, anunciar a possibilidade da alegria, rejeitar as experiências fragmentadas, buscar a experiência perdida da cultura, dilacerada pela sistemática administração centralizada da vida que, em nome da eficácia, quer gerenciar todas as coisas”. (DUARTE, 2005, p. 13)

Sobre Artes PARTE 1

Algo sobre ARTES...

“Os gregos diziam que se maravilhar é o primeiro passo no caminho da sabedoria, e que quando deixamos de nos maravilhar, estamos em perigo de deixar de saber”. (GOMBRICH, p. 7)

A Moça Tecelã
Por Marina Colasanti

Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.
Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila.Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado.Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponto dos sapatos, quando bateram à porta.Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando em sua vida.Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.— Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.— Para que ter casa, se podemos ter palácio? — perguntou. Sem querer resposta imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.
Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.— É para que ninguém saiba do tapete — ele disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.
Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.
A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura, acordou, e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.
Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.

Para pensar...
Como é o fazer/inventar da tecelã?
O que a tecelã precisava para realizar o desejo do seu fazer/ inventar?
Qual é o poder do tear?
O que os elementos do conto nos fazem pensar sobre as possibilidades artísticas?